Terça-feira, 23 de Outubro de 2007

BRINCAR COM BONECOS

 

http://www.incl.saude.gov.br/incl/noticias/not_incl.asp

 

O Hospital de S. José causava-me terror. Hoje nada. Porém, durante muitos anos, foi mesmo assim. Como uma fobia profunda.

 

Quando o meu irmão tinha três anos, e eu sete, lancei-o de um muro alto para o chão, imaginando que podia manejá-lo como um boneco. Senti-lo apenas como um boneco. Tratá-lo tal qual um simples boneco. Desprezava-o. Peguei nele como pude e empurrei-o. Esperava que, lá em baixo, uma amiguinha minha de brincar o conseguisse apanhar. Era só para ver se ela conseguia. Se não conseguisse... bom, logo se via. Mas que perdia o jogo, oh! sim, isso perdia!

 

Ele, o inútil menino pequenino, chorava, tentava escapar. Mas não conseguiu. Fui obrigada a actuar depressa, com uma certa precipitação. Ele não parava quieto! Tive que o empurrar sem muito jeito. Eu que queria calcular tudo muito bem! Não gostava de falhar. Nem nas brincadeiras. Aliás, naqueles tempos, muito menos nas brincadeiras. Brincar é a profissão das crianças, enquanto que a disciplina dos crescidos é um estímulo intelectual básico correspondente. As regras são para quebrar sem que o adulto perceba. Cada castigo merece uma vingança. O chamado disparate. Que virá.

 

O meu irmão espatifou-se lá em baixo. Considerei imediatamente a menina uma incompetente. Mas, principalmente, considerei que, grande parte da culpa, era dele. Desci do muro. Olhei para com pena de não o poder molestar muito. Chorava caído no chão. Gostaria de lhe poder bater. Mas, evidentemente, não podia. Era pena.

 

Chorava de um modo muito sério. Incomodava-me francamente. Talvez o meu maior problema fosse a solidariedade que ele solicitava com aquele choro agoniante. E eu é que era a irmã dele! E, na verdade, tinha tanto respeito por ele como qualquer fedelho por uma bola ou por um pião.

 

A certa altura só queria que ele se calasse. Mais nada. Já nem lhe queria bater. Nem mesmo censurá-lo. Devia parar de chorar e levantar-se. Era tudo. Talvez me sentisse um bocadinho arrependida. Embora, talvez, não sentisse exactamente pena. Preocupava-me ter que o levar para casa. O que dizer à mãe. O problema era que, se fosse, não voltaria certamente a sair. E eu não queria. Desejava continuar por ali a brincar. Mais do que tudo, no momento. Que contrariedade! Desprezei-o intimamente. Novamente.

 

Impaciente, levantei-o do chão para ver se se punha bom. Mas não. Queixava-se muito do braço. Não parava com aquele choro embirrante! Levei-o à mãe. Sem remédio. Quando o entreguei, menti  sobre tudo. Ela, por seu lado, estava cheia de raiva não sei de quê - as crianças habituam-se a ver a raiva dos adultos sem  a questionarem muito. Não lhes interessa as razões que nunca vão compreender. Os míudos, nestas circunstâncias, só pôr-se ao largo. Assim fiz.

 

Foi assim que assisti ao espectáculo inacreditável de ver a minha mãe bater no braço doente do meu irmão. Nem eu teria coragem de chegar a tanto. Achei que o fez por causa das minhas mentiras. Embora soubesse, igualmente, que ela tinha era raiva sem motivo aceitável  e que o choro dele a desesperava ainda mais. Ele ficou abandonado num canto da casa a chorar. Até que o meu pai chegou. Não sei como, não sei porquê, mas foi decidido que o pai o levaria ao hospital.

 

Fiquei muito excitada com a ideia. Coisa séria. Assunto de urgência hospitalar. Eis uma oportunidade de aventura inesperada. Desejei ardentemente acompanhar o pai. Não! Foi a palavra de ordem. Sim porque sim. Insisti e insisti. Queimei a paciência que restava a todos. Tiveram que me deixar ir. Eu e o pai fomos levar o menino doentinho. Agradeci intimamente ao menino.

 

Já dentro do Hospital de S. José, o pai deixou-me sentadinha num sítio de passagem e desapareceu com o meu irmão. Achei boa ideia ficar ali. Estava à vontade para beber das novidades que surgissem. Percebia-se que era um lugar animado. Cheio de gente em movimento e muitas coisas a girar. Atinei a capacidade de observação.

 

Passavam consecutivamente macas. As pessoas que iam nelas pareceram-me mortas ou para morrer. Os que as empurravam sorriam ou falavam para os lados. Conclui que ali se tratava da morte, não da vida. Pensei no meu irmãozinho pequenino.  A ser tratado da morte. Por minha causa.

 

Não estava morto. Talvez não fosse morrer. Pensei. No entanto, acreditei que ele, enquanto doente naquele sítio para doentes graves, mesmo que voltasse vivo pela mão do pai, tinha atravessado um processo de morte. Porque naquele lugar era assim. Naquela altura, creio que pensei na morte dele, que podia ser notícia,  como um acontecimento natural. Não me causaria um desgosto imenso. Antes, eventualmente, alívio. Foi o que pensei.

 

Finalmente, regressaram. Ele e o pai. Vinha vivo depois de estar morto. Apenas com um braço engessado. Gostei de sair daquele hospital. Apenas. Uns dias depois, o medo do Hospital de S. José começou a tomar forma. Só falava do que por lá vi. Estava sempre a falar. E à custa de tanto falar das macas, dos mortos, dos vivos-mortos, dos que sofriam e dos que gozavam lá dentro a empurrar as macas ou a dar remédios, a culpa pela forma como tratei e não sabia que amava o meu irmãozinho tomou-me, transformando-se na fobia do Hospital de S. José.

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publicado por amosca às 00:52
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